domingo, 8 de julho de 2018

Toda a flora

Uma personificação da Deusa no palco, outras tantas no chão e no teto. No meio da catarse coletiva que pedia pra deixar brilhar, todas elas se curavam, mas uma das Deusas do chão pulsava como quem se exorciza. Quando a Deusa que cantava chamou o piloto, o arremate no bordado fez ainda mais sentido e o autoexorcismo deu resultado, porque os processos não acabam, eles só dão lugar a outros.

"Que apesar de tudo me adora não foi suficiente, não é suficiente, porque é tudo tão mais real e bonito quando é facinho, quando todo mundo gosta de gostar. Vocês não concordam?". Ela pensava, se perguntava e dizia às outras ao mesmo tempo.

Há uns três ou quatro caminhos atrás, a Deusa do chão tinha confundido fogo com terra e acabou queimando o que restava. Mas não restava mesmo muita coisa, então foi melhor queimar tudo como num ritual antigo que conferia à árvore condenada alguma dignidade, do que perder mais tempo adubando as raízes de um tronco sem vida.

"Entendido isso, agora vamos lidar com isso. Como? Vivendo. É um desperdício ficar correndo atrás do próprio rabo. Quem quiser, que fique. Vocês não concordam?". Ela pensava, se perguntava e dizia às outras ao mesmo tempo.

Sendo o próprio gozo, dando passos em direção ao outro e o outro em direção a ela, saudade todo dia sendo amor, se amando junto com o outro e querendo isso pro outro também. Amor próprio, reciprocidade, afeto e respeito - pra deixar claro pra quem finge que não entende.

Dessa vez o caminho era de água com terra de verdade, lama pura pra todo lado. Aí não dá pra uma Deusa do chão, filha de caranguejo, não mergulhar. Eram dias de desfazer para refazer, dias para agradecer.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Mariwô


Muitos quase afogamentos depois, a fala felina dela foi lá e fez o que teve vontade. Ciclos de vinte e quatro meses acontecem e, bem na madrugada de São João – ou de Xangô, pra quem prefere o panteão africano como eu – tudo ficou num tom ansioso acima.

Depois de mais de dia de espera, a noite foi real, pé no chão e leve como um punhado de terra da cor da pele dele. Receberam a visita de brigadeiros mágicos, dos mais variados tipos de andarilhos e por último, de uma flor e de um grilo, vivos, mas feitos de uma palha que parecia folha de dendezeiro. Formava-se ali um reinado compartilhado, sem preocupações com futuro ou passado e que estava de parabéns. Dali, o reinado atravessou a cidade numa missão doce e, por fim, seus integrantes se dividiram. Sabiam que a gente vem nesse mundo para fazer a nossa parte, da forma que a gente deve ser e, tudo bem.

No meio da rotina do dia seguinte, ela releu o recado de um dos brigadeiros mágicos que dizia “O amor amansa pela constância” bem na hora que começou a tocar Solamento. Sentiu um toque na boca do estômago avisando que já era hora de ouvir outra canção e, enfim, respirar aliviada, porque o reinado sabia também que quanto mais a gente é quem a gente deve ser, melhor para gente, e para o mundo. Fosse o que fosse, como boa filha da rainha ancestral, não deixaria mais que faltassem manjericão, erva cidreira, flores amarelas e, espada-de-são-jorge para que todos os caminhos se mantivessem abertos.


sábado, 23 de junho de 2018

Ana, a princesa e a encantada

A encantada disse para Ana assim, na lata, que a princesa não morreria tão cedo. Não da doença que lhe acometia mas sim, olha que ironia, se a morte viesse pra logo, viria da doença nos pensamentos que a doença provocou. E Ana não podia fazer nada em relação a isso.

O fato é que a princesa, achando que tinha pouco tempo para dar conta de todos os planos que a levariam ao trono tornando-a o melhor rei que seu reino já havia visto, estava endurecendo como concreto, mirando e acertando em sua própria cabeça.

Ana não tinha o que fazer com aquela informação, ela era totalmente inútil. A princesa estava inalcansavel, não acreditava em encantados e, havia montado pra si mesma um arquétipo que era um misto de Hitachi e Dr. House que dava nos nervos. Olhando de perto, ainda havia pitadas de Dom Quixote - que a princesa não nos ouça. Todos clássicos heróis de atacado que colocam o varejo em segundo plano, mas que, claro, têm seus motivos nobres para fazê-lo, afinal, não há tempo para os detalhes, nem para as sutilezas, muito menos para ser feliz.

A princesa, aos olhos de Ana, era mais uma mistura de Joel Barish, Michel Poiccard com um pouquinho de Aslan, mas isso não era real, o querer bem dá uma embaçada na vista mesmo.

Depois de deixar a encantada brilhando na varanda gelada, Ana foi até o livro da capa preta com os pensamentos às voltas com o insolúvel, abriu uma página aleatoriamente e leu:

"você precisa parar
de procurar um porquê em algum momento
você precisa deixar quieto"

Pegou um pedaço de vidro do tamanho da palma da mão, riscou o que a encantada havia dito e, por fim, seguiu o conselho aberto no livro.

Fim.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Guerra fria

"Você não vê mais os meus stories. Eu sei, a vida online é uma praga, todos precisamos de pausas, as urgências nos deixam doentes, o trabalho é enorme e é o que mais importa na vida. Mas e quando são as redes que diminuem essa distância de tantas cidades entre a gente? E você não deixa de publicar um só dia? E não deixa de aparecer online no WhatsApp? E quando tem uma criança nossa crescendo aqui e nem pelo aplicativo você consegue acompanhar?"

A mensagem que mandou era essa. Ou quase essa, mas se não disse isso, era o que gostaria de ter dito. Quando enviou o peito apertou e pensou na Guerra Fria em que estavam vivendo nos últimos meses. Guerra que era fria porque ela não podia mais lidar com o abandono e engolia sapos em forma de mensagens que demoravam dias para serem respondidas, tentando humanizar a ele e a si mesma, porque a essas alturas a forma humana de ambos já tinha há muito sido abandonada, estavam totalmente despidos. Ela estava ok com isso, ele na tentativa tola e bizarra de se esconder, era risível. Constantemente seu lado selvagem a olhava bem nos olhos sem entender seu comportamento feminino clássico, aquele que homens gostam bem, que moram nas esperas, nas angústias, na resiliência - não à toa todos substantivos femininos. Não havia reciprocidade, apesar dela enxergar todas as feridas dele e do quanto ela tinha amor o suficiente para lambê-las e acolhe-las como se fossem suas. Mas mesmo que seu amor fosse enorme, ela não podia dar sem receber. Não podia. Não podia. Não podia. O passo em direção ao outro só quando o outro der passos em direção a você. A solidão no embalar do pequeno era tão fria quanto a guerra, mais fria do que o inverno que estava chegando. Mais fria ainda que a noite do abraço em frente ao circo. Exausta do looping das lembranças dessa primeira noite e da última, das tentativas, das dores e mergulhada numa saudade eterna do que não ganhou espaço pra ser vivido, só se agarrava em todas as razões pra esquecer. Não adianta ser praticamente da mesma origem, ter desejos parecidos, e nem o toque ser do jeito que é. Ela vai ter de nascer, de novo, outra vez.

"E que venho até remoçando
Me pego cantando
Sem mais nem porquê
E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você"

sábado, 2 de junho de 2018

Narrativa do processo de des(des)amor

Prólogo

[teste] se eu começar a falar com vc só por aqui vc me responde?

Hahahaha aqui notifica

Capítulo 1

cara, eu te estresso muito ?

Vc não me estressa. Vc me frustra

Capítulo 2

De onde tu gosta de mim? Não sei como me aguenta

Te juro que tb não sei. Já perdi o controle disso tem tempo. Agora eu tô só tentando equilibrar os pratinhos

Vc precisa ver Atlanta.

Capítulo 3

oi. será que a gente consegue se falar mais tarde? por aqui mesmo?

A troca vai ser só essa? Eu desabafo, vc responde com tuas verdades e pronto? Só pra eu saber aqui como me comportar mesmo

Capítulo 4

desculpa não faz parte do teu vocabulário né?

Epílogo

no Instagram é fofa, no WhatsApp briga comigo

Tô desintoxicando. Tentando deixar de ser fofa aos poucos. Uma rede por vez.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Exu

Yami se deu conta de que quem fazia tudo era ela. Caçava o bicho, arrastava até em casa, puxava água do poço, cozinhava no fogão à lenha, banhava e alimentava as crianças, varria e organizava a casa e, ainda, cuidava da horta nos fundos do quintal. Nesse dia fatídico, olhou em volta e o tempo ganhou outro compasso, deixou de ser linear e passou a ser cíclico. Ela podia sentir o gosto, o cheiro e a textura da vida. Descobriu que era mais simples se acolhesse e acalentasse sonhos e pesadelos, sendo paciente consigo mesma, porque era a única responsável pelo seu lar. Já tinha dito tudo o que precisava dizer, sentido o que precisava sentir, doído o que precisava doer e ainda faltava. Os hífens, não a toa usados para criar espaço, estavam todos postos em seus devidos lugares - e ela não havia se mexido para inserir nenhum deles em seu próprio texto, mas era fato que estavam lá e foi imperativo que ela tivesse de lidar com isso. A sensação era aterrorizante e libertadora. O momento chegado era de sentir prazer nos rituais cotidianos e de criar espaço para apenas se balançar na rede fumando um cigarro de palha. Era uma delícia existir inteira. Mas era muita metade se achando inteira e pra existir junto, só se fosse inteira também. Pronto, disse o que havia faltado. Agora a porteira estava segura de novo.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

A flor, a terra e o broto

Flor não sabia ser de outro jeito, só sabia amar muito, amar grande, amar pleno. E na sua ânsia de viver atropelava os tempos, porque afinal, já que era amor, precisava do agora.

Terra não sabia ser de outro jeito, só sabia não dizer. E na sua falta de habilidade (ou querência) em abrir espaço, criava pedras, porque afinal, precisava se manter seguro de si - e porque pedras são mais sólidas, mais fáceis de manusear.

Terra escolheu não abrir espaço porque esse era seu modo de funcionamento, e ponto. Flor não podia mais esperar, porque nem se tratava mais de perdão, se tratava de amor, e amor, sabemos, é foda. Foi então que as gargalhadas deixaram de existir, restou o broto a ser regado. E isso ainda é pra vida toda.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Papo reto

Parando as Horas - Flora Matos

Na responsabilidade de ser quem somos
O que interfere em quem nós realmente somos
Hoje te trouxe a passagem pra invadir meu sonho
Minha sede de viver pergunta pra onde vamos
Minha consciência diz que estamos errando
Coração te exige pra continuar pulsando
Ele dá o maior tempero e o maior engano
E a força dessa união diz pra eu seguir te amando

Eu não fui programada pra jogar seu jogo
Mas tô contando as horas pra te ver de novo
Parando as horas pra te ver

A rua onde eu moro foi feita pra você também
Venha me visitar e traga suas coisas no trem
Sou feita dessa paixão que não me convém
Mas é você quem quase sempre convence tão bem
Queria poder te levar sem perguntar "de quem?"
É com você que eu vou onde eu posso chamar de além
Eu paro o tempo e vou no contra quando você vem
Quando vai me pergunto se consigo ficar sem
Sem possuir

E a força dessa união diz pra eu seguir te amando

Eu não fui programada pra jogar seu jogo
Mas tô contando as horas pra te ver de novo
Parando as horas pra te ver





Ouça aqui o álbum Eletrocardiograma completo!

(se isso não é um papo reto, eu não sei mais o que é)