quinta-feira, 29 de junho de 2017

15 de julho

Hoje eu não dormi. Não dormi porque sobra silêncio. Não dormi porque a gravidade funciona. Não dormi porque me dei conta de que em um mês, ou menos, ele chega. Não dormi porque hoje faz um ano daquele abraço apertado em frente ao circo. Não dormi porque não fui criada pra entender e ser complacente com a famigerada "meninice masculina eterna" e isso traz consequências. Não dormi porque mesmo cercada de gente me sinto sempre só. Não dormi porque me dei conta de que somos tão mal educados emocionalmente que acabamos sendo cruéis nessa eterna ilusão de controle. Não dormi porque eu sou só água. Não dormi porque "a vida é foda, dói pra caralho". Não dormi porque 15 de julho tá aí, o primeiro passo do ano 1 da minha nova década. Daqui há uns dias, vai faltar silêncio. Ainda bem.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Cartas II

Os sonhos, sempre eles, e agora, todos os dias. Se revezam entre sonhos bons e pesadelos. E, quando são pesadelos,  sempre acordo ofegante de barriga pra cima.

Eu me forço a acreditar que se ouvesse contato, retorno, sinal de fumaça, eu teria paz. Mas de que tipo de contato estaríamos falando, não é mesmo? Minha porção medrosa, carangueja, masoquista, me faz ficar confortável no silêncio - e na dor. Meus outros noventa por cento só têm vontade de te odiar.

As crias crescem rápido, você não acha? Uma dica preciosa: todas elas crescem rápido, não se volta atrás.

O ano vai embora tarde. E eu sigo esperando, não mais por você.

Lua.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Cartas I

Eu e essa minha mania de sonhar com você. Novamente muito silêncio. Um encontro, um papo, uma transa. Não era épica, mas sabe quando a gente sente tanto tesão que o melhor é ir devagar? Acordei cheia de saudade e em milésimos de segundo lembrei da frase que escrevi pra você há uns dias, "as pessoas são nobres nas grandes causas mas péssimas no proceder cotidiano". Ela continua ecoando aqui.

Eu não sei onde você está e isso dói. Mais uma vez, fisicamente. É solitário estar só. Redundante, eu sei, mas sei também que você sabe do que estou falando porque sei que se identifica.

Apesar de tudo, meu corpo grita. Muitas coisas, de muitas maneiras. Grita teu nome inclusive. Você ouve daí?

Pra tentar dar tempo ao tempo, vou aqui contando uma história com imagens do Rio, essa cidade que pra gente é só ponte.

Sem acreditar,

Lua.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Clarice

Clarice já nasceu velha de espírito. Passou a infância chorando e sentindo saudade, sabe-se lá do que. Durante os verões no quintal de barro vermelho em que cresceu, seu coração quase explodia antes das cigarras quando as ouvia cantar. Foi em meio a essa melancolia, canto de cigarras, amor e barro que se forjou. Depois de um longo espaço-tempo se experimentando como quem experimenta um vestido, Clarice se ajustou e sabe quem é dessa vez. Durante o verão que se aproxima, ela planeja cheiro de chuva e melancia, deixar-se ser observada e não esperar mais. A felicidade mora nos detalhes. E Clarice também.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Foi o perfume

Há dias em que enxerga sinais pesados, e sábado foi especial. Depois de uma manhã de trabalho se organizou pra ver uma exposição em que, não a toa pra esse lugar na vida, o cara desenhava com linhas retas e só coloria em amarelo, azul e vermelho, as mesmas cores da rede. A conversa ia ficando pra trás no aplicativo e as escolhas para o dia fizeram com que o tempo corresse enfim mais devagar. Até que o pipoqueiro tinha o perfume dele e um moço pregava em nome de Deus com o nome daquela cidade na camisa. A saudade se transformou num monstro bem maior que ela. Ainda bem que o segundo turno acabou e que há post-its na parede.

domingo, 30 de outubro de 2016

Ele tem asas

A maternidade é uma loucura. Primeiro um outro humano é gerado dentro da gente a partir de pedacinhos microscópicos e, durante esse processo, o nosso corpo se modifica sem dó pra dar espaço e conforto pra esse ser. O humano "novo em folha" sai - e é foda pôr pra fora, de uma maneira ou de outra - e passamos meses sem dormir direito, comer direito, tomar banho direito, viver direito porque só dá tempo de cuidar da criatura. Na real, nunca mais se "vive direito" depois dessa experiência, esquecem de enfatizar que é para vida inteira. E vida inteira é tempo a beça. Ainda tem nessa conta todas as mudanças que o novo humano traz pra gente, e que não são só físicas. Quem dera que fossem.

Passado o susto inicial, o serumaninho vai ficando gordinho, fofinho, engraçadinho e apesar da lambança que faz, a gente se apaixona perdidamente. E tudo vai se ajeitando, se assentando, e o que saiu de dentro de mim aprendeu a andar depois de gastar todas as rodas do andador, falou mamãe a primeira vez pra nunca mais parar, comia apenas cinco coisas diferentes porque colocava todo o resto pra fora, começou a dormir longe de mim aos 8 meses sem problemas, chamava as pessoas de "mitil" ao invés de gentil aos 2 anos e chegou a hora de ir pra escola... até o dia em que me dei conta de que tinha em casa um moleque de quase 7 anos, que me pentelha há meses e com toda a razão pra que eu o matricule na natação, detesta ir pra escola, gosta de jogar no computador, de assistir desenho japonês e filmes de fantasia, negocia que eu leia gibi pra ele dormir, fica "de cara" com os amigos da escola que acham que tem coisa de menino e coisa de menina, odeia acordar cedo, me dá o abraço mais delicioso e "bola pra frente" do mundo, sabe contar histórias de terror como ninguém, entende perfeitamente a vida corrida e louca que a mãe tem, até agora já quis ser astronauta, cientista, pintor, me diz no meio da exposição do Mondrian que compreendeu que dá pra fazer árvores com outras figuras geométricas além do círculo e é a criança mais independente que conheço. Muita coisa mudou desde que ele nasceu, já passamos de várias fases no game. A única coisa que não muda, desde a primeira vez que eu o peguei no colo, é o jeito dele de me olhar, um olhar cúmplice e que me atravessa. Não existe caô numa relação como essa.

Eu nunca tive dúvidas de que ele teria asas enormes. E tô aqui só pra dar impulso, sem me arrepender por um momento de ter topado me tornar essa mãe.

domingo, 23 de outubro de 2016

Escrever é libertador

Sonhei com você essa noite, duas vezes. Não lembro de detalhes, mas tinha banho gelado, seu cheiro e um tchau silencioso seguido de um retorno sereno, com beijo digno de filme francês no final. Francês porque sonhei em preto e branco e porque nossos encontros reais me lembram o casal do Acossado, do Godard. Ao contrário de quem você é na vida, nos sonhos você ficava calado e não tirava os olhos de mim, como que me lendo inteira, exatamente como naquele dia na sua cozinha. Lembro bem quando nesse mesmo dia você me enviou uma mensagem perguntando o porquê eu voltava. Fico torcendo pra que você se lembre da resposta.

Não está sendo uma semana fácil e percebi que quando fico triste a cicatriz da minha cesariana dói. Faz muito sentido doer no corpo onde eu fui mais frágil. Talvez porque eu fique brigando comigo mesma pra nunca mais ser.

Daqui a pouco eu vou tomar um banho e matar as saudades de uma das praças da minha cidade, meus refúgios preferidos. Eu preciso dividir os passos com quem me é caro, se não, não dou conta. E acredito que não adianta querer dar conta sozinho porque na verdade, ninguém consegue. Muito menos querer salvar o mundo sem se salvar primeiro.

Quinta a noite, olhando pro céu num terraço acolhedor, experimentei um amor pleno, um amar tudo, sem angústia. Foi tão bom e eu não sentia a tanto tempo. Queria esbarrar com alguém que pudesse me amar junto comigo. Queria muito isso pra você também.

Todo dia, é amor. Mas só pra mim.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Lua em câncer no meio da minha vida

Saudade, eu te matei de fome
E tarde, eu te enterrei com a mágoa
Se hoje eu já não sei teu nome
Teu rosto nunca me deu trégua

Milagre seria não ver
No amor, essa flor perene
Que brota na lua negra
Que seca, mas nunca morre

Verdade, eu te cerquei de longe
E tarde, eu encostei no medo
Se ontem eu cantei teu nome
O eco já não morre cedo

Milagre seria não ter
O amor, essa rima breve
Que o brilho da lua cheia
Acorda de um sono leve

Irene
Irene ri

Irene - Rodrigo Amarante

Para ouvir e compartilhar o dia de hoje comigo, clique aqui.